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Cancerígenos da Shell estão a 50 metros do Rio Atibaia


Cerca de 300 mil habitantes de Sumaré e Americana correm o risco de também serem atingidos por substâncias cancerígenas que foram manipuladas pela Shell Química do Brasil em Paulínia. A contaminação da empresa atingiu o solo e o lençol freático do bairro Recanto dos Pássaros, que fica próximo ao Rio Atibaia. Caso a Shell não tome medida emergencial, a pluma contaminadora que está nas águas subterrâneas pode atingir o Atibaia e, conseqüentemente, o Rio Piracicaba.
A possibilidade foi discutida ontem pela manhã em reunião a portas fechadas entre representantes da Cetesb (Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo) e da Seddema (Secretaria de Defesa e Desenvolvimento do Meio Ambiente) de Paulínia. A gerente da agência ambiental do município, Maria da Penha de Oliveira Alencar, confirmou a existência do risco.
A medida emergencial que a Cetesb propõe à Shell é a construção de uma barreira hidráulica para retirar a água subterrânea que está com a pluma, realizar um tratamento e, depois, devolvê-la ao rio.
De acordo com a análise do engenheiro da Cetesb Alfredo Rocca, uma pluma de dieldrin passou metade da área de terreno de algumas chácaras. Ela estaria a cerca de 50 metros do rio. “O Rio Atibaia está muito próximo às chácaras contaminadas. As águas subterrâneas colhidas para análise nessas chácaras não atendem aos padrões de potabilidade”, alertou.
A barreira hidráulica funcionaria como um poço, que retiraria a água subterrânea para que fosse tratada em uma ETA (Estação de Tratamento de Água). Além disso, seria feito um monitoramento constante dos níveis de contaminação do líquido. “É obrigação da Shell realizar a obra”, disse a gerente da Cetesb, informando que a empresa foi oficiada e tem até o dia dois de outubro para apresentar um cronograma com as medidas de remediação.
Para o conselheiro do Consema (Conselho Estadual do Meio Ambiente de São Paulo) Carlos Bocuhy, existe o risco da contaminação do rio e das outras cidades que dependem dele para o abastecimento público.
Bocuhy disse que desde a descoberta da contaminação causada pela Shell, entre os anos de 1996 e 1997, calculou-se matematicamente que a pluma contaminadora chegaria às chácaras em um determinado tempo. “A velocidade da contaminação foi muito grande, portanto, mal calculada. As demais previsões devem ser levadas a sério”, ressaltou.

Risco causa preocupação

O risco de contaminação das águas que abastecem Sumaré e Americana causou preocupação nos representantes do DAE (Departamento de Água e Esgoto) dos dois municípios. O chefe de Serviços de Operações da autarquia de Sumaré, Humberto Crivelaro, disse que se a cidade realmente for atingida, a captação será interrompida no mesmo momento. Ele ressalta, no entanto, que o DAE faz exames periódicos no rio e que, até o momento, nenhuma substância parecida com as manipuladas pela Shell Química do Brasil foi encontrada nas águas.
O diretor técnico do DAE de Americana Rumoaldo José Kokol lembrou que possui somente o Rio Piracicaba, que é formado pelo Atibaia e pelo Jaguari, para a captação da água. “A empresa (Shell) deve cumprir as exigências dos órgãos fiscalizadores para o bem humano”, ressaltou. Kokol informou que estuda-se um projeto para a captação de água da cidade passar a ser feita no Jaguari.

INFORMAÇÕES

Crivelaro informou que precisa saber tudo o que está acontecendo em Paulínia para estudar possíveis medidas em Sumaré. “A Cetesb terá de nos adiantar todas as informações. Será que tem como fazer essa barreira hidráulica? Como se faz a descontaminação do lençol freático?”, questionou.

Projetos estão em discussão

A Shell Química do Brasil esclareceu que medidas de avaliação e recuperação da área estão em discussão com a Cetesb (Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambienteal) para, após aprovação, serem imediatamente implementadas, como é o caso da barreira hidráulica, cujo projeto está sendo analisado.
A empresa informou que, há alguns meses, apresentou o custo da obra da barreira hidráulica e até onde ela será instalada, mas alguns órgãos fiscalizadores estariam barrando a ação.
A gerente da Cetesb em Paulínia, Maria da Penha Alencar de Oliveira, comentou, durante a reunião, que as exigências que a agência ambiental determina à Shell são derrubadas por entidades municipais. O secretário do Meio Ambiente de Paulínia, Washington Carlos Ribeiro Soares, declarou que a Cetesb possui toda a análise e as informações necessárias para a remediação emergencial do local.
A Shell contaminou o Recanto dos Pássaros na década de 70 e 80 com drins e substâncias organocloradas. Os ex-trabalhadores da empresa foram demitidos e hoje lutam para que a Shell realize exames clínicos para detectar possíveis doenças, e, conseqüentemente, oferecer tratamento às enfermidades. Os ex-moradores do bairro tiveram de abandonar as casas. Alguns venderam suas chácaras para a empresa e outros famílias foram alojadas em um hotel da cidade. As quatro famílias que moram no hotel negociam as vendas de suas propriedades.

ACOMPANHAMENTO

Esta semana, foi anunciado pela faculdade de Medicina da Unesp (Universidade Estadual Paulista) a realização de exames clínicos nos ex-moradores e ex-trabalhadores que se dizem reféns da empresa. O Estado terá de investir R$ 30 milhões no tratamento das pessoas que foram contaminadas.
(Da Redação)

Matéria extraída do Jornal Todo Dia, de Americana, em 26/09/2003

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