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É preciso gritar para enfrentar o neoliberalismo

Benedito Ferraro, padre e assessor da Comissão Arquidiocesana de Pastoral Operária e Professor na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas)

“Nós temos que gritar porque a fome voltou a tomar conta de muitas famílias”, diz Ferraro. Além de os povos indígenas sendo atacados e roubados em seus territórios; os quilombolas ameaçados de suas terras; os ribeirinhos/as são ameaçados pela contaminação das águas dos rios pelos agrotóxicos; o feminicídio avança em nosso país; a Amazônia continua sendo desmatada, provocando desequilíbrio que atinge toda a América Latina.

Este é o desafio. Enfrentar o neoliberalismo, que ataca os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, que destrói os recursos naturais, que deixa morrer de fome milhões de pessoas, quando há muito mais alimento do que bocas para comer. “Como dizia Paulo Freire, grande educador, e D. Pedro Casaldáliga, bispo poeta-profeta, temos que continuar esperando com esperança esperançada. Os trabalhadores e trabalhadoras se tornam os novos profetas que tiram água da pedra!”, afirma Ferraro.

Padre Benedito Ferraro é assessor da Pastoral operária
Padre Benedito Ferraro é assessor da Pastoral operária

O senhor é assessor da Pastoral Operária, qual avaliação sobre as atuais retiradas de direitos trabalhistas?
Benedito Ferraro – A classe trabalhadora lutou durante décadas para conquistar direitos trabalhistas. Esta luta foi com muito suor e sangue. Temos muitos e muitas mártires que no campo e na cidade entregaram seu sangue para que houvesse a possibilidade de uma vida melhor para todos os trabalhadores e trabalhadoras. Infelizmente, por um Golpe de Estado, entramos em um período tenebroso para a Classe trabalhadora. Com a Reforma Trabalhista e a aprovação da Terceirização, a classe vem perdendo seus instrumentos de proteção e vê afrouxadas e enfraquecidas as leis de regulamentação do trabalho, dando total liberdade para o capital explorar a mão de obra. O resultado é mais trabalho análogo à escravidão, mais trabalho infantil, menos segurança; níveis de acidentes de trabalho no Brasil alarmantes; maior flexibilização de contratos, à remuneração e ao tempo de trabalho, sobretudo, agora que foi legalizada a atividade remota e intermitente. O que décadas atrás eram formas “atípicas” de trabalho, tem, hoje, o potencial de se tornar comum, normal. O trabalhador que, no passado, lutava por direitos, hoje, se vê forçado a lutar para comer! Este é o resultado das reformas trabalhistas feitas pelo governo Temer e Bolsonaro.

É possível uma nova Economia, com base na solidariedade, preservação ambiental e direitos humanos?
Partimos da afirmação de que o capitalismo neoliberal e, hoje, ultraneoliberal na proposta de Paulo Guedes, somente aumenta o desemprego, o subemprego, o emprego informal e precarizado. Na verdade, estamos diante de uma forma de produção, concentração e desperdício que caracterizam o que o Papa Francisco define como uma “Economia que mata”: “Assim como o mandamento “não matar” põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, hoje devemos dizer “não a uma economia da exclusão e da desigualdade social”. Essa economia mata… Não se pode mais tolerar que se jogue comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social” (Evangelii Gaudium – Alegria do Evangelho 53).

A proposta do Papa Francisco, convocando os/as jovens economistas do mundo inteiro para pensar uma “nova economia”, tem como objetivo criar as condições de vida digna para todos os/as trabalhadoras/es, buscando uma ecologia integral que defenda a nossa Casa Comum. Creio que o Papa Francisco define muito bem esta sua proposta ao falar para os Movimentos Populares Mundiais: “O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco. E cada um, repitamos a nós mesmos do fundo do coração: nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra” (II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)).

A pandemia veio para mostrar que é possível ser mais solidário?

Frente ao sistema capitalista neoliberal (ou mesmo, no caso do Brasil, ultraneoliberal), estamos enfrentando a acumulação do capital sob a liderança do sistema financeiro que está gerando uma crise ambiental, social e econômica. Este sistema está causando uma destruição acelerada dos recursos naturais do planeta (água, florestas, ar) e acelera o aquecimento global como também o desiquilíbrio na relação entre as espécies, o que vem causando a pandemia em consequência da devastação ambiental. Aumenta o desemprego e o subemprego, gerando miséria, fome e precarizando o trabalho.

Diante de toda crise que a humanidade enfrentou e enfrenta, há sempre possibilidades e oportunidades de mudança, de conversão, de novos caminhos. Nós estamos frente a este desafio: romper com uma sociedade que se pauta pela desigualdade, pelo preconceito, pela exclusão, pelo desrespeito da pessoa do outro/a. Confiemos na força do Espírito da Vida que sobra no universo desde seus princípios na perspectiva de gerar mais consciência (processo de complexificação contínua) e mais vida. Esta é nossa esperança!

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