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Caso Shell: câncer já fez 15 vítimas

Antônio de Pádua Mello, ex-morador do bairro Recanto dos Pássaros, em Paulína/SP (FOTO: LEANDRO FERREIRA/AAN)
Antônio de Pádua Mello, ex-morador do bairro Recanto dos Pássaros, em Paulína/SP (FOTO: LEANDRO FERREIRA/AAN)


Marcelo Andriotti
DA AGÊNCIA
ANHANGÜERA
marcelo.andriotti@rac.com.br


Uma das principais estratégias de defesa das empresas que
provocaram contaminações na região de Campinas é admitir que solo, subsolo e
lençol freático foram afetados por substâncias químicas, mas ao mesmo tempo
contestar a relação delas com doenças que tenham surgido ou possam se manifestar
em ex-trabalhadores e moradores de áreas atingidas. Mas há evidências que
comprovam haver uma relação de direta da contaminação com doenças. De um grupo
de 130 ex-moradores do bairro Recanto dos Pássaros, contaminado pela Shell em
Paulínia, há 15 casos de pessoas que morreram por causa de câncer ou estão com a
doença segundo levantamento feito para a quarta reportagem da série do Correio
sobre contaminação.


O levantamento foi feito pelo ex-morador Antônio de Pádua Mello,
que afirma ter sido constatado nas pessoas que passaram por exames até sete
diferentes produtos que contaminaram a região onde moravam. Essa estatística
significa uma média de 11,5 casos de câncer a cada 100 pessoas. “Não é normal
ocorrer tantos casos. É claro que alguma coisa errada havia na fábrica”, disse
Mello.


Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), a média prevista
no Estado de São Paulo é de 327 para cada 100 mil homens e 306 para cada 100 mil
mulheres. Isso dá uma média de 0,32 caso a cada 100 em para homens e 0,3 em cada
100 na população feminina. Ou seja, entre os moradores do Recanto dos Pássaros a
média é 37 vezes maior.


Uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do
Trabalho (MPT) está pedindo que a Shell e Basf paguem uma indenização de R$ 620
milhões para custear equipamentos e laboratórios para atendimento das vítimas
como forma de ressarcir os gasto do Sistema Único de Saúde (SUS) com o
tratamento de ex-funcionários e ex-moradores do Recanto dos Pássaros.


No pedido de tutela antecipada, a Procuradoria Regional do
Trabalho da 15ª Região também pede que as empresas sejam obrigadas a contratar
um plano de saúde vitalício, com ampla cobertura, para todos os trabalhadores
expostos aos riscos de contaminação, incluindo-se aqueles que desempenhavam suas
atividades no Recanto dos Pássaros.


Uma primeira audiência foi realizada em maio, mas as empresas
recorreram e conseguiram adiar a decisão da Justiça. O caso continua sendo
avaliado e outras audiências serão realizadas. A Procuradoria do Trabalho
apresenta os resultados de exames para sustentar sua reivindicação.


Avaliações na população realizadas em 2001 indicaram que 156
pessoas – 86% dos moradores do bairro -, apresentavam pelo menos um tipo de
resíduo tóxico no organismo. Desses, 88 apresentam intoxicação crônica, 59
tinham tumores hepáticos e da tireóide e 72 estavam contaminados por drins. Das
50 crianças avaliadas, que na época tinham até 15 anos, 27 manifestavam um
quadro de contaminação crônica.


Paulo Souza, ex-morador do bairro e atual secretário de Defesa e
Desenvolvimento do Meio Ambiente de Paulínia disse que antes de serem
notificados do problema da contaminação, começaram a perceber que havia algo
errado. “Eu colocava cloro na minha piscina e a água ficava preta. Depois
apareceu gente da empresa dizendo para não comermos o que era produzido nas
chácaras e não beber a água. Mesmo assim, eles não admitem que a gente estava
sendo contaminado”, afirma.


O NÚMERO


620 MILHÕES DE REAIS É o valor da indenização pedido pelo
Ministério Público do Trabalho para a Shell e Basf custearem tratamentos de
saúde.


Plano inédito monitora
Mansões de Sto. Antônio


Trabalho é desenvolvido pelo Ministério da Saúde junto com a
Prefeitura de Campinas


Um trabalho pioneiro está sendo desenvolvido por meio de uma
parceria Ministério da Saúde com a Prefeitura de Campinas diretamente com a
população exposta à contaminação ambiental do loteamento Mansões Santo Antônio.
A área foi contaminada por produtos químicos da fábrica Proquima, que funcionou
no local de 1973 a 1996.


Segundo Janete de Prado Alves Navarro, sanitarista e
coordenadora da Vigilância de Saúde Ambiental de Campinas, o projeto está sendo
implantado desde o ano passado e pretende criar procedimentos para tratar casos
de contaminação em todo o País.


“Estamos definindo quais são as competências de cada órgão
envolvido, identificando as pessoas que moram ou trabalharam na área,
capacitando profissionais sobre como comunicar a população nesses casos sem
criar pânico ou prejudicar os contaminados e criando um protocolo de
acompanhamento”, disse.


Esse protocolo define quais os contaminantes identificados que
podem causar problemas à saúde, o que fazer para acompanhar as pessoas afetadas,
quais exames elas devem fazer, a cada quanto tempo devem ser avaliadas e o que é
necessário para garantir tratamento.


“Muitas doenças podem se manifestar só dentro de 15 ou 20 anos.
Por isso, estamos discutindo a gestão da saúde, como melhorar a capacidade de
atendimento, os exames e equipamentos para tratar esses casos”, afirma. Até
pedidos de verbas para garantir esse atendimento estão sendo feito agora ao
governo federal.


O método de investigação que avalia o histórico da ocorrência e
as implicações na saúde tem como base a metodologia norte-americana da Agency
for Toxic Substances and Disease Registry (ATSDR), que dimensiona o risco e
controla a exposição humana aos contaminantes ambientais.


O objetivo do governo federal ao desenvolver esse programa em
Campinas é estabelecer um protocolo brasileiro de investigação de áreas
contaminadas por produtos químicos e das populações expostas. Além da área das
Mansões Santo Antônio, outras quatro áreas localizadas em diferentes cidades
brasileiras estão incluídas no projeto piloto.


Um dos maiores desafios encontrados pelo grupo em Campinas é a
forma de abordagem com a população afetada e a identificação de seus interesses
e temores. No caso do Mansões, o primeiro temor dos moradores foi com a perda
financeira por causa da desvalorização dos imóveis. Muitos ex-trabalhadores
contaminados na construção também têm problemas para conseguir empregos depois
que o caso virou público.


Essa resistência é comum em casos de contaminação. Paulo Souza,
que foi um dos primeiros a denunciar o caso de contaminação no Recanto dos
Pássaros, em Paulínia, diz que no início enfrentou a revolta dos caseiros que
temiam perder seus empregos nas chácaras. Mas depois que diversos trabalhadores
começaram a morrer jovens, eles perceberam a gravidade do caso.


Histórico


A contaminação ambiental das Mansões Santo Antônio foi
ocasionada pela já extinta indústria de produtos químicos Proquima. A empresa
esteve instalada no local por mais de 20 anos e trabalhava com a recuperação de
solventes.


Após encerrar suas atividades, a empresa vendeu o terreno para a
construtora Concima que, em 1997, iniciou a construção de um condomínio. Em
abril de 2002, a Prefeitura foi informada oficialmente pela Companhia de
Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) sobre a situação inadequada do
local.


A população foi orientada a não utilizar água que provenha do
solo. Equipes da Secretaria de Saúde de Campinas interditaram 19 poços e
lacraram uma nascente.


Também foram embargadas, em setembro de 2002, quatro construções
que estão naquela área. As obras tiveram que ser suspensas porque, por
necessitarem de movimentação de solo, poderiam oferecer risco à saúde dos
trabalhadores. Ainda hoje está sendo negociado com a construtora um acordo para
remediação da área. (MA/AAN)


FONTE: Reprodução na íntegra
(texto e foto)
de reportagem publicada na edição de hoje
(quarta-feira, 12
de dezembro de 2007),
do jornal Correio Popular, de Campinas/SP.


A HISTÓRIA COMPLETA NO SITE DO
SINDICATO


Leia toda a história sobre o crime de contaminação ambiental e
humana (nos moradores e em seus trabalhadores) praticadas pelas multinacionais
Shell Brasil e Basf S.A., na planta industrial situada no bairro Recanto dos
Pássaros, em Paulínia/SP, no site do Sindicato Químicos Unificados:

https://www.quimicosunificados.com.br/categoria/shell/

10 de dezembro de 2007

Contaminados Shell/Basf enfrentam futuro sombrio

Sem dinheiro e sem emprego, parte de ex-funcionários
morreu e parte convive com perspectiva de doenças que ainda virão

Reunião de ex-trabalhadores da Shell e da Basf, no Sindicato dos Químicos Unificados, Regional de Campinas (foto: Eduardo Beck/AAN)
Reunião de ex-trabalhadores da Shell e da Basf, no Sindicato dos
Químicos Unificados, Regional de Campinas (foto: Eduardo Beck/AAN)


Marcelo Andriotti
DA AGÊNCIA
ANHANGÜERA
marcelo.andriotti@rac.com.br


Quarenta e oito, até a semana passada. Esse é o número de
ex-funcionários da Shell e da Basf de Paulínia mortos desde 1977. A conta
macabra é feita e refeita pelo grupo que se reúne toda quinta-feira no Sindicato
dos Químicos em Campinas. Eles sabem que podem ser os próximos a entrar na
contabilidade. Muitos estão doentes e outros torcem para que as substâncias
acumuladas em seus corpos não se manifestem. O grupo faz parte da Associação dos
Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas (Atesq), que existe há 5 anos e
luta para que as multinacionais custeiem tratamentos de saúde dos trabalhadores
e seus familiares.


“As substâncias que nos contaminaram se manifestam a médio e
longo prazos e podem atingir até a terceira ou quarta geração de nossas
famílias”, disse Antonio de Marco Rasteiro, diretor da associação, para a
segunda matéria da série do Correio Popular sobre contaminações. Dos 48 colegas
mortos, nenhum tinha mais de 60 anos e muitos foram vítimas de câncer. Eles
ainda não têm as contas fechadas com as causas de cada uma das mortes.

Cerca de 10 ex-trabalhadores morreram vítimas de acidentes, mas
nem nesses casos eles descartam ligações com a contaminação. “Eles podem ter
passado mal antes dos acidentes”, diz Rasteiro. O que pode parecer exagero, para
esses ex-funcionários faz sentido. Eles sentem na pele os efeitos das
substâncias químicas que carregam.


Além dos contaminados da Shell e Basf em Paulínia, a associação
também reúne contaminados em Cubatão, Osasco, Mauá, Rafard e outras localidades
onde houve unidades industriais com casos confirmados. Rasteiro diz que no
Estado de São Paulo são 1.822 áreas contaminadas, sendo mais de mil de postos de
combustíveis e cerca de 800 de indústrias.


A Shell nega que eles tenham sido contaminados durante o tempo
em que trabalharam lá. “(É) importante destacar que a existência de contaminação
ambiental não implica necessariamente em risco ou danos para a saúde das
pessoas. Dessa forma, não é possível afirmar que trabalhadores estejam
contaminados pelo fato de terem trabalhado em uma instalação onde foi detectada
uma contaminação do solo em área restrita”, informou a empresa por meio de sua
assessoria de imprensa.


Os trabalhadores dizem que sofreram exposição crônica às
substâncias e que as empresas os mantiveram em contato com as elas mesmo depois
de fazer a autodenúncia de contaminação, em 1995. “Eles informaram que apenas
estava sendo feito um trabalho para diminuir o impacto ambiental e não falavam
sobre a gravidade da contaminação”, disse Rasteiro.


Ele diz que a contaminação afetou até a edificação onde
funcionaram as fábricas. “Já tiraram 626 caminhões de entulho e 450 toneladas de
ferragem do local”, afirma. Ainda diz que havia contato direto com as
substâncias, pois havia falhas de engenharia e de procedimento no manejo dos
produtos.


Ação


O grupo entrou em 2002 com uma ação coletiva pedindo que a Shell
e a Basf custeiem tratamentos médicos. Neste ano, o Ministério Público entrou
com outra ação e novas negociações foram retomadas há seis meses, segundo o
advogado da Adesq, Vinicius Cascone. Ele diz que a ação da associação é apenas
para o tratamento de saúde e, pedidos de indenização, devem ser feitos
individualmente.


Os trabalhadores afirmam que nunca passaram por tratamento
custeado pelas empresas, apesar de apresentarem inúmeros problemas. Segundo a
Shell, todos os ex-funcionários foram convidados para as avaliações de saúde por
diversos anúncios publicados no segundo semestre de 2001 nos principais jornais
da região, por telegramas e telefonemas.


A empresa também afirma que por mais de três anos deixou à
disposição dos ex-empregados que trabalharam em sua antiga fábrica uma das mais
respeitadas clínicas especializadas em saúde do trabalhador e toxicologia
ocupacional para avaliação de saúde.


Essa clínica recebeu mais de 250 ex-empregados e realizou cerca
de duas mil consultas. A clínica permanecia acompanhando os ex-trabalhadores
avaliados, do ponto de vista médico, para aprofundar o diagnóstico e orientar as
devidas condutas segundo a Shell.


Sem renda, muitos se tornaram
dependentes


Sinval José Ramos, de 50 anos, trabalhou por 24 anos e seis
meses na Shell e na Basf. Quando fez exames de perícia em 2002, foi detectado
que era portador de hepatite tóxica. Desde lá, ele ficou afastado pelo Instituto
Nacional de Seguridade Social (INSS), até que em junho teve seu benefício
cortado. A perícia do instituto avaliou que ele está apto para voltar ao
trabalho, apesar de ele ter determinações médicas de que não pode nem pensar em
trabalhar em indústrias químicas.


Desde então, quem sustenta sozinha a casa onde vivem com dois
filhos é a esposa. Ele chegou a ganhar em primeira instância uma ação
indenizatória de R$ 175 mil e mais dois salários mínimos por mês. Mas a vitória
foi em primeira instância e a Shell está recorrendo. “Não sei o que fazer, pois
sei que não vou conseguir emprego, como o que vem ocorrendo com vários colegas”,
disse Ramos.


É o caso de Carlos Henrique Leoni, 46 anos, que trabalhou na
Shell entre 1985 e 1998. Ele foi contaminado por metais pesados, sente dores
constantes na região do fígado e tem inchaços abdominais. Por dois anos e três
meses ele também sobreviveu de rendimentos vindos do afastamento pelo INSS. Mas
há seis meses o benefício foi cortado.


“Dizem que eu estou apto para trabalhar, mas quando chego nas
empresas e passo por avaliações, depois que chegam os exames médicos não sou
chamado mais. Eles não dizem o motivo, mas sei que é por causa da contaminação”,
diz Leoni. Separado, ele vive com um filho de 17 anos e, depois de vender o
carro para pagar contas, está precisando da ajuda da mãe para se
sustentar.


Ricardo Luis Mendes Gonçalves, de 45 anos, trabalhou na Shell de
1986 a 2002. Em 1999 foi detectada uma artrose no fêmur e em 2000 uma doença
renal. A empresa o encaminhou para tratamento, mas ele continuou trabalhando no
período. Exames detectaram metais pesados em seu organismo.


Casado e com dois filhos, ele está afastado pelo INSS há cinco
anos. Em abril de 2008 voltará a passar por uma avaliação da perícia do
instituto e teme ter o mesmo destino de seus colegas que perderam o benefício.
(MA/AAN)


Projeto-piloto vai garantir atendimento
específico


Um projeto-piloto desenvolvido pelas secretarias de Saúde de
Campinas e Paulínia está utilizando uma ferramenta específica para o atendimento
de ex-moradores e ex-trabalhadores de áreas contaminadas. O projeto é o
resultado de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) firmado pelas secretarias e
Ministério da Saúde com o Ministério Público do Trabalho.


O objetivo é oferecer atendimento específico a ex-moradores e
ex-freqüentadores do Recanto dos Pássaros, além de ex-trabalhadores da Shell,
Cyanamid e Basf, levando-se em consideração que são pacientes que tiveram
exposição prolongada a diversas substâncias químicas perigosas. Eles passam por
avaliações clínicas e são orientados a informar que foram expostos aos
contaminantes específicos todas as vezes que futuramente passarem por
atendimentos de saúde.


Com esses dados, será possível observar quais as doenças que
estão se manifestando nessas pessoas, a incidência e a possível ligação com as
substâncias que contaminaram a região onde moravam, freqüentavam ou trabalhavam.
Os trabalhos começaram a ser desenvolvidos no primeiro semestre e, a partir de
outubro, foram convidadas a participar 24 pessoas escolhidas por
sorteio.


“Em janeiro de 2008 apresentaremos os resultados desse
projeto-piloto e, a partir daí, o SUS (Sistema Único de Saúde) poderá
desenvolver seus programas de atenção e vigilância à saúde de populações
expostas a contaminação utilizando essa ferramenta”, disse o médico-sanitarista
Carlos Alberto Henn, coordenador do grupo técnico do projeto.


Há seis áreas de contaminação no Brasil onde estão sendo
desenvolvidos projetos do gênero, mas o de Paulínia e Campinas é o pioneiro e o
primeiro em que o sistema está sendo implantado. A idéia é que as informações
estejam disponíveis on-line a todos os médicos do SUS, podendo ser acessadas
sempre que esses pacientes precisem de atendimento em qualquer cidade do País.
(MA/AAN)


Fonte: Reprodução na íntegra
(texto e foto)
de reportagem publicada na edição de hoje
(segunda-feira,
10 de dezembro de 2007),
do jornal Correio Popular, de
Campinas/SP.


A HISTÓRIA COMPLETA NO SITE DO
SINDICATO



Leia toda a história sobre o crime
de contaminação ambiental e humana (nos moradores e em seus trabalhadores)
praticadas pelas multinacionais Shell Brasil e Basf S.A., na planta industrial
situada no bairro Recanto dos Pássaros, em Paulínia/SP, no site do Sindicato
Químicos Unificados: https://www.quimicosunificados.com.br/categoria/shell/

08 de dezembro de 2007

 	Reprodução de parte da capa do jornal Correio Popular, de 08 de dezembro de 2007, de Campinas/SP, com reportagem sobre Caso Shell

Reprodução
de parte da capa do jornal Correio Popular, de 08 de dezembro de 2007,
de Campinas/SP, com reportagem sobre Caso Shell


Caso Shell: famílias
continuam em hotel

Há mais
de quatro anos, ex-moradores de chácaras contaminadas

por pesticidas vivem
sem qualquer perspectiva e privacidad
e

Marcelo Andriotti
DA AGÊNCIA
ANHANGÜERA
marcelo.andriotti@rac.com.br

 	Antonia, em imagem na reportagem do CoPop sobre contaminação Shell (08dez07)

Antonia acorda todas as noites há quatro anos e meio no quarto do
hotel onde mora com sua família em Paulínia. Seu sono é interrompido pelos
rugidos do leão do zoológico que funciona no bosque ao lado. Ela está acostumada
com os lamentos noturnos do animal e não se incomoda em ser acordada. “O que me
deixa triste toda vez que o ouço é perceber que eu e ele passamos pela mesma
situação. Vivíamos em liberdade, no meio da natureza, e hoje estamos enjaulados
sem ter feito nada para merecer isso”, diz. Antonia Pelegrini é uma das
ex-moradoras do bairro Recanto dos Pássaros, contaminado por uma fábrica da
Shell, tema que abre uma série de reportagens que o Correio publica a partir de
hoje.

A família de Antonia é uma das duas que desde 2003 vive no hotel de
Paulínia com despesas custeadas pela empresa. Em 2001, a multinacional começou a
comprar chácaras do bairro afetado pela contaminação. Em 2003, todos os
moradores que ainda viviam no local foram transferidos de suas chácaras por
ordem da Justiça com gastos pagos pela Shell, muitas delas indo para o
hotel.

A empresa admitiu que contaminou a área por meio de uma
autodenúncia após detectar contaminação em uma área interna em 1993, quando fez
uma avaliação para vender sua unidade de agrotóxicos. Mas ela não admite ter
contaminado seus ex-funcionários e nem os ex-moradores. Os exames e diagnósticos
feitos pelo toxicologista Igor Vassilieff não são aceitos pela Shell e o caso se
arrasta na Justiça. O especialista detectou a presença de metais pesados e
organoclorados, substâncias usadas na fabricação de pesticidas, no organismo dos
moradores.

Enquanto isso, ex-proprietários, caseiros que trabalhavam nas
chácaras e ex-funcionários vivem um calvário marcado por humilhações, privações
e o medo constante de estarem desenvolvendo doenças causadas pela contaminação
que a multinacional não admite existir.

Antonia viu os filhos crescerem e
o marido morrer no período em que está no hotel. Hoje, os filhos têm 11, 15 e 24
anos e mal podem receber os amigos no local onde moram. “Por melhor que seja o
hotel, você não pode receber amigos e familiares como se fosse sua casa. Só
tenho um pouco de privacidade dentro do quarto. Ao abrir a porta e pisar no
corredor, já estou em um local público”, diz.

Os filhos não têm onde
brincar com os amigos ou namorar. A vontade de fazer um lanche de noite, coisa
corriqueira para quem mora em casa, pode se transformar em um transtorno. É
preciso se vestir e se arrumar para descer até o restaurante pegar algo. Para
driblar esse problema, Antonia tem um microondas dentro do quarto e guarda
comida.

Vale

Situação bem diferente ela vivia cinco anos atrás, quando morava na
propriedade de 20 alqueires que a família de seu marido comprou na década de 60.
A região do bairro era zona rural, um vale onde viviam pequenos produtores. Em
1977, a Shell instalou na região sua fábrica de agrotóxicos.

Valdemar
Labello, marido de Antonia, estava com câncer na bexiga e morreu vítima de
complicações cardíacas em 2005. Não está comprovada a ligação da contaminação
com a doença. Ele criava gado e tinha um pequeno comércio na chácara. O sonho do
casal era criar os filhos no meio da natureza, com muita saúde, tranqüilidade e
espaço. Quando apareceram funcionários da empresa levando água e pedindo para
que não bebessem mais o que retiravam dos poços e aconselhando a não comer ou
comercializar o que produziam por lá, o casal começou a perceber que o sonho
estava se tornando um pesadelo. Após 2003, ao saírem da propriedade, precisaram
vender o gado, o cavalo, fechar o comércio.

Os cães e o gato foram
levados para um canil. Os móveis e outros pertences, guardados em um barracão
até que uma nova casa ou chácara seja comprada. Antonia não entende por que a
Shell paga todas essas despesas mensais e não aluga uma casa ou chácara, que
ficaria muito mais barato para a empresa e muito mais aconchegante e humano para
a família. “O que mais incomoda é a insegurança e a dúvida sobre o futuro
causadas pelo situação que vivemos aqui”, afirma.

Ressarcimento

Antonia quer ser ressarcida pela propriedade que perdeu e pelo lucro
cessante, levando em consideração que a família vivia da renda gerada pela
propriedade rural. Também quer indenização por danos morais e garantia de
acompanhamento médico. Por isso, não aceitou a proposta inicial feita pela
Shell. A outra moradora que está com sua família no hotel vive a mesma situação.
Mas prefere não falar com a imprensa. Cansou até de dar entrevistas sobre o caso
e sua situação.

SAIBA
MAIS

Em 2001, o Correio Popular conquistou o
Prêmio Esso com a série de reportagens Contaminação em Paulínia, produzida pelos
repórteres Mário Rossit e Marcelo Villa, sobre os graves danos ambientais e à
saúde dos moradores do bairro Recanto dos Pássaros, causados pelo vazamento de
pesticidas da antiga fábrica da Shell entre os anos 70 e 90. Entre as
reportagens da série, o jornal detalhou o resultado dos exames toxicológicos que
apontaram a contaminação de 153 moradores das chácaras do Recanto dos Pássaros
com drins, produtos cancerígenos manipulados pela Shell. A reportagem relatou o
drama humano de moradores que já haviam desenvolvido tumores e passavam por
tratamentos de saúde.

Caseiros e proprietários enumeram
dificuldades


Os caseiros e pequenos
proprietários que fizeram acordo com a Shell para deixar o Recanto dos Pássaros
estão passando necessidades. Os que tinham famílias de até cinco pessoas
receberam R$ 25 mil para comprar uma casa e os com mais de cinco, R$ 30 mil. Com
isso, conseguiram apenas casas muito modestas e precisaram colocar mais dinheiro
para fazer o negócio.

Quando moravam nas chácaras, eles tinha uma renda
mensal de cerca de R$ 800,00, além de casa, luz e água de graça e os alimentos
garantidos pelo plantio e criações. Também não pagavam o Imposto Predial e
Territorial Urbano (IPTU). Muitos deles tomavam conta das chácaras e trabalhavam
meio período fora. Com a mudança, passaram a ter mais gastos e dificuldades para
conseguir empregos.

Lúcia Aparecida do Nascimento, Claudomiro de
Oliveira, José Francisco do Nascimento, Maria Aparecida Bueno de Souza e Jovair
Souza vivem essa situação. Os irmãos Clóvis Rodrigues Bueno e Benedito Aparecido
Rodrigues Bueno eram proprietários. Eles receberam R$ 67 mil pela chácara de
1.945 metros quadrados. Também perderam a fonte de renda e, com o dinheiro,
compraram duas casinhas e colocaram dinheiro do bolso.

Reunidos em uma
casa no Nosso Teto, bairro popular de Paulínia, eles contaram as mesmas
histórias de doenças e dificuldade em conseguir trabalho. Muitas das crianças
têm problemas como dor de barriga e outras doenças desde o nascimento. Muitos
casos de câncer e doenças de pele são relatados por eles.

Tratamento

Eles tiveram tratamento médico de especialistas por poucos meses depois
que saíram do bairro, que foram bancados pela Prefeitura de Paulínia. Com a
Shell, eles continuam brigando na Justiça para conseguir custeio para tratamento
médico.

Os tratamentos realizados pelo toxicologista Igor Vassilieff
foram interrompidos e eles não recebem mais medicamentos. As consultas e
tratamentos são feitos em postos de saúde e não há atendimento por
especialistas. Novas perícias que deveriam ser feitas por ordem judicial foram
canceladas duas vezes.

Para conseguir emprego, eles dizem enfrentar
preconceito pelo fato de terem morado no Recanto dos Pássaros. Muitos
empregadores querem evitar os ex-moradores por acreditar que eles terão a
produtividade afetada pelos problemas de saúde. (MA/AAN)


Multinacional nega contaminação
humana


A Shell não respondeu por que mantém as
famílias hospedadas em hotel e não em casas ou chácaras, o que seria mais barato
para a empresa e confortável para os ex-moradores. Segundo comunicado da
multinacional, “Os valores sobre remoção, bem como de negociações entre a Shell
e ex-moradores do Recanto dos Pássaros são assuntos particulares e, dessa forma,
não são divulgados pela empresa … (a empresa) sempre buscou entendimento com
as famílias hospedadas no hotel. No entanto, diante das negativas recorrentes às
diferentes propostas apresentadas pela empresa o assunto se encontra,
atualmente, sob mediação do Judiciário”.

A multinacional também afirma
que fez exames de sangue em 159 moradores e ex-moradores em laboratórios no
Brasil e no Exterior, e que não há evidência de pessoas intoxicadas. Os
resultados foram apresentados, de acordo com a empresa, a especialistas em
toxicologia, que confirmaram a inexistência de evidências de doenças
relacionadas com a contaminação ambiental Quanto ao relatório de saúde
apresentado pela Prefeitura de Paulínia, a Shell encaminhou para a análise de
especialistas que apontaram erros de metodologia, processos e interpretação. Por
isso, o trabalho está sendo contestado na Justiça pela multinacional. Informa
ainda que não é possível afirmar que trabalhadores estejam contaminados pelo
fato de terem trabalhado em uma instalação onde foi detectada uma contaminação
do solo em área restrita.

A empresa de agrotóxicos da Shell foi
implantada em Paulínia em 1977. Em 1993, durante auditoria para a venda da
unidade para a American Cyanamid foi feita a autodenúncia. A partir de 2000, a
unidade passou a ser ocupada pela Basf, que também responde a processos de
ex-trabalhadores por supostas contaminações.

Os planos de recuperação
ambiental do bairro prosseguem com uma barreira hidráulica e uma estação de
tratamento de águas subterrâneas em pleno funcionamento. A prioridade da Shell é
dar continuidade à recuperação ambiental daquela área onde funcionou sua antiga
fábrica. Os projetos de remediação são constantemente apresentados pela empresa
às autoridades competentes, segundo informou a empresa.

As análises
ambientais e de risco realizadas pela Shell, baseadas em modelos internacionais,
apontam para a inexistência de risco à saúde se observada a restrição ao consumo
e uso das águas subterrâneas. (MA/AAN)

Orgulho de
ver o progresso chegar deu lugar à depressão


Muitos ex-moradores que viviam no hotel não agüentaram os
inconvenientes, a impessoalidade e o desconforto de viver fora de sua própria
casa. Antônio de Pádua Mello morou no hotel até pouco mais de dois anos, quando
sentiu que estava tendo ataques cada vez mais fortes causados por uma
insuficiência respiratória. A vida no hotel o deixava cada vez mais deprimido e
ansioso, o que agrava seu estado de saúde e levou a várias
internações.

“Chegava no hospital quase morto. Precisava sair de lá se
quisesse continuar vivendo”, afirma Mello. Em setembro de 2004, a Shell chamou
seu advogado para negociar. Sua chácara foi avaliada em R$ 670 mil e ele pediu
R$ 400 mil para vendê-la à multinacional. A empresa disse que pagaria, desde que
ele retirasse todas as ações judiciais. Mello recusou, mas, passado algum tempo
e com sua saúde piorando, acabou aceitando.

“Tive a ilusão que saindo de
lá iria esquecer da história ruim e melhorar da minha depressão. Mas continuei
mal, nem consigo sair e ir para o Centro de Campinas ver familiares”, diz Mello.
Ele comprou uma casa em Barão Geraldo e vive com a mulher, um filho, nora e
neta. Por um período, a filha e o genro também moraram com ele.

Mas nada
se compara com o período em que vivia na chácara com toda a família: três
filhos, cinco netos, a mulher e a sogra. Quando ele viu a Shell se instalando no
local, não foi contra. “Fiquei até orgulhoso de ser vizinho de uma
multinacional. Era o progresso chegando”, lembra.

Mas quando começou a
poluição, com o mau cheiro invadindo sua casa ele viu que o progresso poderia
cobrar um preço muito alto. “O incinerador da fábrica era obsoleto e o cheiro
era insuportável. Precisava colocar ventiladores dentro de casa voltados para a
janela”, diz Mello.

Ex-gerente de uma rede de lojas aposentado, Mello
recebe aposentadoria de R$ 1.150,00 e precisa gastar parte do dinheiro que
sobrou após comprar a casa para pagar suas contas mensais. “Estou vivendo assim
até o dinheiro acabar, depois não sei como vou viver. O que ganho não dá para
pagar as despesas da casa e os remédios que precisamos usar”, diz.
(MA/AAN)

A HISTÓRIA COMPLETA NO
SITE DO SINDICATO


Leia toda a história sobre o
crime de contaminação ambiental e humana (nos moradores e em seus trabalhadores)
praticadas pelas multinacionais Shell Brasil e Basf S.A., na planta industrial
situada no bairro Recanto dos Pássaros, em Paulínia/SP, no site do Sindicato
Químicos Unificados: https://www.quimicosunificados.com.br/categoria/shell/



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